Série Inteligência Musical: quando o gosto pessoal deixa de ser o centro da decisão

O gosto pessoal faz parte da relação que cada um tem com a música, mas não pode ser o único critério quando a escolha sonora precisa servir a um público, uma mensagem e uma experiência.
Artigo 04 inteligencia musical gosto pessoal site

Todo mundo tem uma relação particular com a música. Há artistas que acompanham fases da nossa vida, músicas que nos levam imediatamente para algum lugar e estilos pelos quais sentimos mais afinidade. Isso faz parte da experiência de ouvir.

Com quem trabalha profissionalmente com música não é diferente. Talvez seja até mais intenso, porque passamos anos construindo repertório, descobrindo versões, conhecendo artistas, acompanhando tendências e formando nossas próprias referências.

Durante muito tempo, eu também parti naturalmente desse lugar.

Se uma música me parecia boa, se eu gostava daquela versão ou acreditava que determinada faixa tinha força, isso influenciava minha percepção. Só que os anos de trabalho foram me mostrando uma coisa que hoje parece simples, mas que mudou bastante a maneira como passei a pensar minhas escolhas.

Quando a música é para outras pessoas, o meu gosto não pode ser o centro de tudo.

Gostar de uma música e escolher uma música são coisas diferentes

Quando estou ouvindo música sozinho, não existe problema algum em colocar aquilo que quero. Posso repetir uma faixa dez vezes, evitar um gênero inteiro ou ouvir algo simplesmente porque aquilo me faz bem naquele momento.

Mas basta entrar um público nessa equação para a lógica começar a mudar.

Num evento, por exemplo, a música passa a conviver com uma série de outras informações. Existe um ambiente, existe um objetivo, existe uma narrativa, existe um horário e existe um grupo de pessoas que não necessariamente compartilha das mesmas referências que eu.

Por isso comecei a desconfiar de uma frase muito comum:

“Eu gosto dessa música.”

Ela pode ser um ótimo ponto de partida para uma conversa. O problema é quando vira também o ponto de chegada.

Porque a pergunta profissional precisa continuar.

Ela funciona aqui?

Quem está ouvindo também precisa entrar na escolha

Essa mudança parece pequena, mas, na prática, desloca bastante a maneira como pensamos música.

Quando começo por mim, escolho a partir das minhas referências. Quando começo pela experiência, preciso olhar para quem está do outro lado.

Não se trata de tentar agradar todo mundo. Seria impossível, e provavelmente produziria escolhas sem personalidade. Trata-se de reconhecer que o público faz parte da decisão.

Quem são essas pessoas? Por que estão reunidas? O que acabou de acontecer naquela sala? Existe expectativa, celebração, concentração, ansiedade? É o começo de uma experiência ou o final de um dia inteiro de conteúdo?

Aos poucos fui percebendo que essas informações muitas vezes dizem mais sobre a escolha do que minha preferência pessoal.

E isso exige uma certa humildade de quem trabalha com música.

Há momentos em que precisamos abrir mão de uma faixa de que gostamos muito porque ela simplesmente não serve àquela situação. Em outros, uma música que talvez não estivesse na nossa seleção particular pode ser exatamente aquilo que o momento pede.

Isso não empobrece a escolha.

Ao contrário. Torna a decisão mais consciente.

Meu gosto continua comigo

É importante dizer que não estou defendendo uma espécie de neutralidade musical. Não acredito nisso.

Nossas referências fazem parte de quem somos. O repertório que construímos influencia o que percebemos, as conexões que fazemos e até a velocidade com que encontramos alternativas quando alguma coisa muda.

Meu gosto continua presente em tudo o que faço.

O que mudou foi o lugar que ele passou a ocupar.

Ele deixou de ser a resposta e passou a ser uma das ferramentas disponíveis.

Essa distinção também me ajudou a separar duas frases que parecem parecidas, mas dizem coisas completamente diferentes.

“Eu não gosto dessa música.”

“Essa música não funciona.”

Na primeira, estou falando sobre mim. Na segunda, estou fazendo uma afirmação sobre uma situação e, para sustentar essa afirmação, preciso olhar muito além da minha preferência.

Não funciona para quem? Em qual momento? Por qual motivo?

Sem contexto, essa segunda frase perde força.

Uma ótima música também pode ser uma escolha ruim

Talvez este seja um dos aprendizados mais úteis que os eventos me trouxeram.

Uma música não precisa ser ruim para estar errada naquele momento.

Pode ser uma produção incrível, um clássico, uma faixa reconhecida por todo mundo. Ainda assim, ela pode entrar cedo demais, ter energia demais para aquela situação, disputar atenção com algo mais importante ou simplesmente não conversar com o público que está ali.

O inverso também acontece.

Uma escolha que isoladamente poderia parecer simples ganha uma força enorme quando encontra o momento certo.

Foi por isso que comecei a me interessar cada vez menos pela pergunta “qual é a melhor música?” e cada vez mais por outra:

qual música faz sentido agora?

Essa mudança conecta diretamente o gosto pessoal ao tema que tratei no artigo anterior: contexto.

O que eu gosto importa.

O que está acontecendo importa mais para aquela decisão.

Sair do “eu gosto” muda a forma de ouvir

Quando começamos a pensar assim, algo curioso acontece.

Passamos a ouvir músicas de outra maneira.

Uma faixa que antes eu descartaria rapidamente pode ganhar interesse quando penso em uma função específica. Outra, que adoro ouvir, pode permanecer guardada porque percebo que não há espaço para ela naquele momento.

O repertório começa a ser organizado mentalmente não apenas por gênero, artista ou época, mas também por possibilidades de uso.

Recepção.

Entrada.

Transição.

Concentração.

Expectativa.

Celebração.

Encerramento.

Essas funções não são regras fixas. Uma mesma música pode ocupar lugares completamente diferentes dependendo da situação.

Mas essa forma de pensar me ajudou a perceber que repertório e preferência não são exatamente a mesma coisa.

Repertório amplia possibilidades.

Preferência revela afinidades.

A decisão precisa considerar algo além dos dois.

O que esta experiência está pedindo?

Essa talvez tenha se tornado uma das perguntas mais importantes para mim.

Porque ela me obriga a sair por alguns segundos da minha própria referência.

Antes de decidir, observo.

O público.

O ambiente.

O momento.

O que veio antes.

O que precisa vir depois.

E somente então volto para o repertório.

Perceba que não estou eliminando a sensibilidade de quem escolhe. Estou fazendo justamente o contrário. Estou pedindo mais sensibilidade, porque escolher deixa de ser apenas procurar algo de que gosto e passa a envolver a leitura de uma situação.

É nesse ponto que a ideia de Inteligência Musical começou a ganhar mais clareza para mim.

Não como uma fórmula para escolher a música certa, porque essa fórmula não existe.

Mas como uma capacidade de perceber melhor antes de decidir.

✨ Insight de Ouro

Gosto pessoal faz parte da escolha, mas não precisa comandá-la. Quando existe um público, o contexto também ganha voz.

Talvez um bom exercício seja observar sua próxima escolha musical para outras pessoas.

Em vez de começar com “eu gosto disso”, experimente pensar:

“Por que esta música faz sentido aqui?”

Às vezes, uma mudança tão pequena na pergunta já muda toda a decisão.

E no próximo artigo quero ir justamente para um lugar que considero fundamental nesse processo: observar as pessoas antes de apertar o play.

Que a música nos conecte sempre!

Abraço,
Myrrha

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Myrrha

MYRRHA (Luiz Myrrha) é Diretor Musical, fundador do MYRRHA Group, do Inteligência Musical Hub e Publisher do Música Conecta. Formado em Marketing, com MBA em Inteligência Artificial, atua há mais de 30 anos no mercado musical, conectando música, estratégia, Live Marketing e experiências de marca.

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