Uma música pode funcionar perfeitamente hoje e parecer completamente errada amanhã.
Pode emocionar em um momento, passar despercebida em outro e até incomodar dependendo da situação.
Durante muito tempo, eu observava isso principalmente pela experiência.
A faixa era a mesma.
O que havia mudado?
Com o tempo, a resposta começou a ficar cada vez mais evidente para mim.
O contexto.
Não ouvimos música no vazio.
Ela sempre chega acompanhada de alguma coisa. Um lugar, um horário, pessoas, expectativas, lembranças, acontecimentos e até o estado daquele ambiente alguns minutos antes.
Foi quando comecei a perceber que, para escolher música, não bastava olhar apenas para a música.
Era preciso olhar para tudo o que estava acontecendo ao redor dela.
A mesma música, outra experiência
Imagine uma música conhecida, energética, daquelas que rapidamente despertam reconhecimento.
À noite, durante uma celebração, ela pode fazer todo sentido.
As pessoas já estão mais soltas, o evento avançou, existe uma expectativa de comemoração e aquela energia encontra espaço para acontecer.
Agora imagine a mesma música às oito e meia da manhã, enquanto convidados chegam para uma convenção e ainda procuram suas credenciais.
Nada mudou na gravação.
O artista é o mesmo.
O arranjo é o mesmo.
O BPM é o mesmo.
Mas a experiência é completamente diferente.
Esse exemplo parece óbvio quando colocado no papel.
Na prática, nem sempre é.
Muitas escolhas musicais são feitas olhando primeiro para a faixa e só depois para a situação.
Eu fui aprendendo a fazer o caminho contrário.
Primeiro entender a situação.
Depois pensar na música.
O ambiente também participa da escolha
Um espaço diz muita coisa antes mesmo de qualquer música começar.
Um auditório preparado para uma apresentação importante pede uma leitura.
Uma confraternização pede outra.
Uma recepção para poucas pessoas tem uma dinâmica diferente de um evento com milhares.
Até o próprio desenho do espaço interfere na maneira como percebemos a música.
As pessoas estão sentadas?
Estão circulando?
Estão conversando?
Esperam alguma coisa começar?
Acabaram de assistir a uma apresentação intensa?
É intervalo?
É chegada?
É despedida?
Tudo isso muda a função que a música pode ocupar.
E foi justamente a palavra função que começou a me interessar cada vez mais.
Porque nem sempre a música precisa chamar atenção.
Às vezes, ela precisa acolher.
Em outros momentos, preparar.
Criar expectativa.
Aumentar energia.
Ajudar uma transição.
Ou simplesmente deixar espaço para que outra coisa seja o centro da experiência.
Escolher bem também significa entender quando a música não precisa ser protagonista.
O público muda a leitura
Existe ainda outra variável que torna tudo mais interessante: as pessoas.
Uma música não carrega exatamente o mesmo significado para todo mundo.
Cada pessoa chega com suas próprias referências, memórias e experiências.
Uma faixa pode lembrar adolescência para alguém e não significar absolutamente nada para outra pessoa.
Pode representar uma época, um filme, uma viagem, uma festa ou alguém importante.
É impossível controlar todas essas associações.
E essa nunca foi a minha intenção.
O que podemos fazer é observar.
Quem são essas pessoas?
Qual é a faixa etária predominante?
Por que estão reunidas?
O que compartilham naquele momento?
Qual é o grau de familiaridade entre elas?
É um encontro profissional, uma celebração, uma premiação, um lançamento?
Quando começo por essas perguntas, a escolha deixa de ser apenas musical.
Ela passa a fazer parte da leitura da experiência.
O momento anterior importa
Uma das coisas que os eventos me ensinaram é que nenhum momento começa exatamente do zero.
Sempre existe algo que veio antes.
Uma música pode ter sido planejada para uma entrada importante, por exemplo.
No roteiro, ela parece perfeita.
Mas imagine que a apresentação anterior terminou com uma fala emocional, seguida de alguns segundos de silêncio.
Se entrarmos imediatamente com uma música extremamente expansiva apenas porque estava prevista no roteiro, talvez aquela transição não respeite o que acabou de acontecer na sala.
É preciso perceber.
Em outro dia, aquela mesma entrada pode pedir exatamente o contrário.
A sala está dispersa.
As pessoas acabaram de voltar de um intervalo.
Existe conversa.
A energia caiu.
Nesse caso, uma escolha mais marcante talvez ajude a reorganizar a atenção.
O roteiro continua importante.
Mas a realidade também fala.
E precisamos escutá-la.
Foi aí que comecei a enxergar a música de outro jeito
Quando passei a observar mais o contexto, minha relação com o repertório também mudou.
Eu comecei a parar de perguntar apenas:
“Essa música é boa?”
E passei a perguntar:
“Essa música é boa para quê?”
Depois:
“Para quem?”
“Quando?”
“Em qual ambiente?”
“Depois de quê?”
“Antes de quê?”
Essas perguntas pareciam simples, mas começaram a organizar de outra maneira algo que durante muitos anos eu havia feito principalmente pela prática.
A música continuava importante.
Mas já não estava sozinha no centro da decisão.
Ao redor dela existiam pessoas, espaço, tempo, intenção e experiência.
Contexto não é fórmula
Também é importante dizer que observar o contexto não significa encontrar uma resposta matemática.
Não existe uma tabela capaz de afirmar que determinada música funcionará sempre com determinado público.
Pessoas não funcionam assim.
Experiências também não.
O contexto ajuda a tomar uma decisão mais consciente.
Ele reduz escolhas automáticas.
Faz com que a gente pare um pouco antes de apertar o play.
E talvez isso seja uma das coisas que mais fui aprendendo durante esse período de pesquisa e organização das minhas próprias experiências.
Nem sempre precisamos conhecer mais músicas.
Às vezes, precisamos compreender melhor o momento em que pretendemos utilizá-las.
E quando isso acontece, uma música conhecida há vinte anos pode ganhar uma função completamente nova.
A música não mudou. A leitura mudou.
Foi justamente por isso que o contexto começou a ocupar tanto espaço nas minhas anotações sobre Inteligência Musical.
Uma escolha musical não acontece isoladamente.
Ela faz parte de algo maior.
E quanto melhor compreendemos esse algo maior, mais intenção podemos colocar na escolha.
✨ Insight de Ouro
A música pode ser exatamente a mesma. O que muda é o lugar que ela ocupa dentro da experiência.
Por isso, antes de perguntar qual música utilizar, talvez exista uma pergunta ainda mais importante:
O que está acontecendo aqui, agora?
No próximo artigo da série, quero avançar sobre uma variável que costuma influenciar nossas decisões muito mais do que imaginamos:
o nosso próprio gosto musical.
Que a música nos conecte sempre!
Abraço,
Myrrha