Em 2017, comecei a escrever algumas ideias em um caderno.
Naquele momento eu não tinha um método pronto e nem sabia exatamente onde aquilo iria chegar. A vontade era mais simples. Depois de tantos anos trabalhando com música, eu percebia que havia acumulado experiências que não estavam organizadas em lugar nenhum.
Eram histórias de bastidores, situações vividas em eventos, escolhas que funcionaram, outras que não deram tão certo e muitas decisões tomadas quase intuitivamente.
Comecei a pensar que valia a pena registrar aquilo.
Talvez aquelas anotações pudessem, um dia, se transformar em uma metodologia. Talvez servissem para ensinar alguma coisa do que eu havia aprendido na prática. Ou talvez fossem simplesmente uma maneira de não deixar tantos anos de experiência apenas na memória.
Foi assim que tudo começou.
Do caderno para o computador
No início, eu escrevia no papel.
Anotava lembranças, situações que havia vivido, ideias, perguntas e percepções que surgiam a partir do meu trabalho.
Com o tempo, naturalmente, o caderno começou a dividir espaço com o computador.
Passei a transportar aquelas anotações, organizar melhor os assuntos e pesquisar. Vieram artigos, livros, estudos, referências e diferentes fontes.
Esse movimento foi importante porque comecei a confrontar aquilo que eu conhecia pela experiência com aquilo que outras pessoas já haviam estudado.
Algumas leituras confirmavam percepções que eu tinha há anos. Outras abriam novas perguntas.
E quanto mais eu pesquisava, mais entendia que meu interesse não estava apenas na música em si.
Eu estava interessado no que acontecia ao redor dela.
Por que determinada música funcionava tão bem em uma situação e parecia completamente inadequada em outra?
Por que conhecer milhares de músicas não significava necessariamente saber escolher a música certa para determinado momento?
Por que duas pessoas podiam ouvir exatamente a mesma música e reagir de maneiras tão diferentes?
E, principalmente, quanto daquilo que eu fazia por experiência poderia ser compreendido, organizado e compartilhado?
Essas perguntas começaram a mudar minhas anotações.
Duas palavras que fizeram sentido
Em algum momento desse processo, duas palavras passaram a representar muito bem aquilo que eu estava tentando compreender:
Inteligência Musical.
Gostei da expressão imediatamente.
Mas fiz aquilo que normalmente faço quando encontro uma ideia que me interessa: fui pesquisar.
E descobri que a expressão já tinha uma história muito anterior à minha.
Foi nesse caminho que encontrei o trabalho do psicólogo e pesquisador Howard Gardner.
Em 1983, Gardner publicou Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences. Sua teoria propôs uma visão de inteligência que não se limitava a uma única capacidade geral. Entre as capacidades apresentadas estava a inteligência musical. O Project Zero, da Harvard University, continua apresentando a inteligência musical entre os componentes da teoria das inteligências múltiplas. Project Zero
Aquilo foi importante para mim.
Primeiro porque mostrou que eu estava entrando em um território que já possuía uma história e precisava ser respeitado.
Mas também porque percebi que a pergunta que vinha dos meus bastidores seguia por outro caminho.
Eu não estava tentando criar uma teoria sobre a inteligência humana.
Estava tentando compreender melhor algo que havia experimentado durante anos trabalhando diretamente com música.
O que a experiência estava tentando me ensinar
Minha curiosidade vinha da cabine, dos eventos, das reuniões de briefing e principalmente da observação.
Ao longo dos anos, comecei a perceber que escolher música envolvia muito mais do que gosto pessoal ou conhecimento de repertório.
Havia o público.
Havia o ambiente.
Havia o momento.
Havia uma mensagem.
Havia aquilo que estava acontecendo antes da música entrar e aquilo que precisava acontecer depois.
E havia algo que eu considero cada vez mais importante: intenção.
Foi então que comecei a olhar para minhas próprias experiências de outra maneira.
Em vez de pensar somente em qual música tocar, passei a prestar ainda mais atenção no contexto daquela escolha.
Para quem?
Em qual momento?
Por quê?
O que está acontecendo naquele ambiente?
O que queremos favorecer com essa escolha?
Eu ainda não tinha uma definição fechada para Inteligência Musical. Muito menos tudo aquilo que a expressão representa para mim hoje.
Entre 2017 e 2021, o que existia era um processo.
Pesquisa, referências, experiências profissionais, observações, dúvidas e muitas anotações.
A Inteligência Musical não apareceu pronta em uma folha de papel.
Ela foi sendo construída.
Um arquivo que continuou crescendo
Hoje, olhando para trás, talvez o mais interessante seja perceber que aquele primeiro caderno não continha respostas.
Ele continha perguntas.
E foram justamente essas perguntas que fizeram o arquivo crescer.
Do papel para o computador. Da experiência para a pesquisa. Da pesquisa novamente para a prática.
Aos poucos, comecei a enxergar conexões que antes estavam espalhadas em momentos diferentes da minha carreira.
Esse período, entre 2017 e 2021, formou a base de muitas das reflexões que depois passei a organizar com mais clareza.
É parte desse caminho que quero recuperar nesta Série Inteligência Musical.
Não para reescrever o passado com aquilo que sei hoje, mas para mostrar como uma ideia vai amadurecendo quando experiência, curiosidade e pesquisa começam a se encontrar.
✨ Insight de Ouro
Muitas vezes, uma ideia não começa com uma resposta. Começa quando passamos a fazer perguntas melhores sobre aquilo que fazemos todos os dias.
Foi mais ou menos assim comigo.
Talvez eu não tenha inventado a expressão Inteligência Musical.
Mas foi naquele período que comecei a descobrir o que ela significava para mim.
E essa história estava apenas começando.
E para você: conhecer muita música é suficiente para saber utilizá-la no momento certo?
Que a música nos conecte sempre!
Abraço,
Myrrha