Série Inteligência Musical: o que aprendi observando pessoas antes de apertar o play

Antes de escolher a próxima música, aprendi a olhar para as pessoas. Expressões, conversas, energia e comportamento do público começaram a revelar pistas que nenhum repertório, sozinho, conseguiria oferecer.
Artigo 05 inteligencia musical observar antes do play site

Durante muitos anos, uma parte importante do meu trabalho aconteceu antes de qualquer música começar.

Eu podia ter uma playlist preparada, conhecer bem o briefing, saber quem estaria no evento e imaginar como determinado momento deveria acontecer. Tudo isso ajudava. Mas, quando as pessoas realmente entravam na sala, aparecia uma informação que nenhum planejamento conseguia antecipar por completo.

O público estava ali. De verdade.

E ele começava a falar antes mesmo de dizer qualquer coisa.

Foi convivendo com eventos, pistas, plenárias, recepções e tantos ambientes diferentes que passei a prestar mais atenção nisso. As pessoas demonstram muito pelo jeito como chegam, conversam, ocupam o espaço e reagem ao que está acontecendo.

Não estou falando de adivinhar o que alguém pensa. Muito menos de transformar comportamento humano em fórmula. Estou falando de algo mais simples e, ao mesmo tempo, muito poderoso para quem trabalha ao vivo:

observar.

Antes de ouvir a música, eu comecei a ouvir a sala

Há ambientes em que as pessoas chegam conversando alto, se cumprimentando, andando rapidamente de um lado para outro. Em outros, entram mais contidas, procurando lugar, olhando para o palco, esperando alguma orientação.

Às vezes o público acabou de sair de uma apresentação intensa. Em outra situação, voltou do almoço e ainda está retomando a atenção. Há eventos em que a expectativa está evidente desde a chegada. Há outros em que precisamos construir essa energia aos poucos.

Durante muito tempo, eu fui desenvolvendo essa percepção pela prática.

O interessante é que, quando comecei a organizar minhas reflexões sobre Inteligência Musical, percebi que aquilo também fazia parte do processo.

Eu não estava apenas ouvindo música.

Estava tentando ouvir o ambiente.

As pessoas dão pistas

Um público não é uma massa única.

Dentro da mesma sala existem histórias, gostos, idades, referências e estados de espírito diferentes. Por isso nunca gostei da ideia de que basta identificar um perfil e concluir automaticamente qual música deve tocar.

“Esse público tem tal idade, então toca isso.”

Não é tão simples.

A faixa etária ajuda. O perfil profissional ajuda. O briefing ajuda. Mas as pessoas presentes naquele dia continuam sendo a informação mais importante.

Elas estão prestando atenção?

Conversando?

Circulando?

Já demonstram vontade de participar ou ainda estão observando?

A energia está crescendo ou diminuindo?

Existe alguma coisa acontecendo na sala que não estava prevista?

Essas pequenas pistas começaram a entrar nas minhas decisões de maneira cada vez mais consciente.

E, algumas vezes, me fizeram mudar completamente o que estava planejado.

O planejamento encontra a realidade

Quem trabalha com evento sabe que existe o roteiro e existe o que realmente acontece.

Os dois nem sempre são iguais.

Uma entrada pode atrasar. Uma fala pode terminar de maneira muito mais emocionante do que imaginávamos. Um intervalo pode se estender. O público pode voltar mais disperso. Uma apresentação pode gerar uma reação tão forte que simplesmente não faz sentido tratar o momento seguinte exatamente como estava desenhado horas antes.

É aí que observo uma diferença importante entre executar uma playlist e tomar uma decisão musical.

A playlist foi preparada antes.

A decisão acontece agora.

Isso não diminui a importância do planejamento. Pelo contrário. Quanto melhor preparado estou, mais alternativas tenho quando preciso mudar.

O repertório planejado me dá segurança.

A observação me diz qual parte dele faz sentido naquele instante.

Às vezes, alguns segundos valem muito

Existe uma tentação enorme, especialmente quando estamos operando ao vivo, de preencher tudo.

Terminou uma fala? Música.

Abriu uma porta? Música.

Começou uma transição? Música.

Só que nem sempre a resposta precisa ser imediata.

Ao observar melhor as pessoas, também fui percebendo o valor de esperar alguns segundos.

Ver como a sala reage.

Entender se aquele momento ainda está acontecendo.

Perceber se o público precisa de energia, de continuidade ou simplesmente de um pequeno espaço antes que outra camada sonora entre.

Isso me ensinou que Inteligência Musical também pode estar na pausa.

No tempo.

No momento de não apertar o play ainda.

Pode parecer contraditório para alguém que passou a vida trabalhando com música, mas uma das decisões musicais mais importantes pode ser justamente esperar.

A pista também ensina

Quem já trabalhou como DJ conhece essa sensação.

Você coloca uma música e observa.

Nem sempre é preciso esperar o refrão ou olhar uma pista cheia para perceber alguma coisa. Mudanças pequenas começam a aparecer. Um grupo reage. Outro continua conversando. Pessoas se aproximam. Algumas se afastam. A atenção muda de direção.

Com o tempo, você acumula essas experiências.

Mas o aprendizado mais importante, para mim, não foi criar uma lista de reações e respostas prontas.

Foi entender que precisava continuar olhando.

Porque aquilo que funcionou com um público ontem não necessariamente terá o mesmo efeito hoje.

A observação não elimina a experiência.

Ela impede que a experiência vire piloto automático.

O corpo também faz parte da escuta

Quando falamos em música, pensamos imediatamente no ouvido. Mas, dentro de uma experiência ao vivo, há muito mais informação circulando.

As pessoas mudam de postura.

Olham para algum lugar.

Aproximam-se umas das outras.

Pegam o celular.

Param uma conversa.

Voltam a conversar.

Levantam.

Sentam.

É claro que nenhum desses sinais, sozinho, significa uma coisa específica. Seria perigoso interpretar dessa maneira.

Mas, quando você está presente e acompanha o ambiente ao longo do tempo, começa a perceber mudanças.

E são justamente essas mudanças que me interessam.

Não para controlar as pessoas.

Para compreender melhor o momento que estou ajudando a construir.

Repertório sem observação pode virar repetição

Depois de muitos anos trabalhando, é fácil cair numa armadilha.

Você sabe que determinadas músicas costumam funcionar.

Conhece boas aberturas.

Tem trilhas que já resolveram situações parecidas.

Sabe quais faixas geram reconhecimento rapidamente.

Tudo isso é valioso.

Mas existe um risco: repetir uma resposta apenas porque ela funcionou antes.

Foi por isso que comecei a valorizar cada vez mais a observação.

Ela me força a estar presente.

A olhar novamente para uma situação que, à primeira vista, parece conhecida.

Talvez a música seja a mesma.

Talvez o tipo de evento seja parecido.

Mas aquelas pessoas nunca estiveram exatamente juntas, naquele lugar, naquele horário, vivendo aquela sequência de acontecimentos.

A experiência é nova.

A decisão também precisa estar aberta a isso.

Antes do play existe uma pergunta silenciosa

Hoje percebo que, antes de muitas escolhas musicais, faço quase automaticamente uma leitura.

Como está essa sala?

O que mudou nos últimos minutos?

Onde está a atenção?

Do que esse momento parece precisar?

Nem sempre consigo responder com palavras.

Às vezes é uma percepção construída pela experiência, pelo briefing e pela observação acontecendo ao mesmo tempo.

Talvez seja justamente essa combinação que começou a me interessar tanto quando passei a estudar e organizar a ideia de Inteligência Musical.

Porque escolher não é simplesmente procurar uma faixa dentro de um repertório.

É perceber algo primeiro.

E depois decidir.

✨ Insight de Ouro

Antes de apertar o play, vale olhar para quem vai ouvir. Muitas vezes, o público já está dando pistas sobre aquilo de que o momento precisa.

Quanto mais penso sobre isso, mais acredito que uma boa escolha musical começa alguns segundos antes da música.

Começa na atenção.

No próximo artigo da série, quero avançar justamente para uma etapa anterior a essa. O que acontece quando começamos a pensar a música antes mesmo do evento começar?

Que a música nos conecte sempre!

Abraço,
Myrrha

Foto de Myrrha

Myrrha

MYRRHA (Luiz Myrrha) é Diretor Musical, fundador do MYRRHA Group, do Inteligência Musical Hub e Publisher do Música Conecta. Formado em Marketing, com MBA em Inteligência Artificial, atua há mais de 30 anos no mercado musical, conectando música, estratégia, Live Marketing e experiências de marca.

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