Série Inteligência Musical: conhecer músicas não é o mesmo que saber usá-las

Conhecer milhares de músicas amplia o repertório, mas não garante uma boa escolha. É quando contexto, percepção e intenção entram na decisão que a música começa a assumir outra função.
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Quem trabalha muitos anos com música acaba acumulando repertório.

Artistas, bandas, versões, estilos, épocas, remixes, músicas que fizeram sucesso e outras que quase ninguém lembra. Aos poucos, esse conhecimento se torna uma espécie de biblioteca interna.

E isso é importante.

Mas uma das coisas que fui percebendo ao longo da minha experiência é que conhecer muita música não resolve sozinho uma questão aparentemente simples:

Qual música usar agora?

Essa pergunta parece básica, mas muda muita coisa.

Porque uma coisa é reconhecer uma música, saber de que época ela é, conhecer seu artista ou lembrar que ela funcionou muito bem em determinado evento.

Outra coisa é entender se ela faz sentido naquele momento.

E foi justamente aí que comecei a perceber uma diferença que se tornaria importante na minha maneira de pensar música.

Conhecer é diferente de decidir

Repertório oferece possibilidades.

Quanto maior o repertório, maior o número de caminhos disponíveis. Isso é uma vantagem evidente para quem trabalha profissionalmente com música.

Mas quantidade de opções não significa necessariamente qualidade de decisão.

Imagine uma biblioteca com milhares de músicas.

Todas estão disponíveis.

Qual delas deveria tocar?

A resposta não está apenas dentro da biblioteca.

Está também fora dela.

Está nas pessoas que estão ouvindo, no ambiente, no horário, no tipo de encontro, no que aconteceu minutos antes e no que vai acontecer depois.

Está no contexto.

Por isso, duas pessoas podem conhecer exatamente a mesma música e tomar decisões completamente diferentes sobre quando utilizá-la.

O repertório pode ser parecido.

A leitura daquele momento, não.

A mesma música pode ocupar lugares completamente diferentes

Esse sempre foi um dos aspectos que mais me chamou atenção.

Uma música pode funcionar muito bem na entrada de um executivo no palco e ser inadequada para receber convidados no início de um evento.

Pode ser excelente para uma celebração e excessiva para um momento que exige atenção.

Pode levantar uma pista às onze da noite e causar estranhamento se aparecer cedo demais.

A música não mudou.

O que mudou foi tudo o que existe ao redor dela.

O público.

O ambiente.

O momento.

A expectativa.

A intenção.

É por isso que, para mim, falar apenas em “música boa” ou “música ruim” quase nunca é suficiente quando estamos construindo uma experiência.

Há músicas excelentes utilizadas no momento errado.

E existem escolhas aparentemente simples que funcionam justamente porque foram feitas no momento certo.

Quando o repertório deixa de ser o centro

Durante muito tempo, o repertório foi uma espécie de cartão de visitas de quem trabalhava com música.

Quantas músicas você conhece?

Quais estilos domina?

Você tem aquela versão?

Conhece aquele artista?

Tudo isso continua sendo importante.

Mas, quando comecei a organizar minhas próprias reflexões sobre Inteligência Musical, outra questão passou a me interessar mais:

O que fazemos com tudo aquilo que conhecemos?

Porque acumular repertório é uma coisa.

Interpretar uma situação e escolher dentro desse repertório é outra.

A experiência profissional vai ensinando isso de uma maneira muito direta.

Nem sempre a música que você mais gosta é a melhor escolha.

Nem sempre a faixa mais conhecida é a que aquele momento pede.

Nem sempre aquilo que funcionou ontem vai funcionar hoje.

E talvez uma das maiores dificuldades de trabalhar com música seja justamente aceitar que não existe uma resposta automática.

É preciso observar.

A pergunta começou a mudar

Com o tempo, fui percebendo que algumas das minhas perguntas também estavam mudando.

Em vez de pensar apenas:

“Qual música eu posso colocar?”

Comecei a pensar mais em:

“Do que este momento precisa?”

Parece uma diferença pequena.

Não é.

Quando fazemos a primeira pergunta, partimos do repertório.

Quando fazemos a segunda, começamos pela experiência.

E só depois vamos até o repertório procurar uma resposta possível.

Essa inversão se tornou muito importante para mim.

Primeiro compreender.

Depois escolher.

Isso não significa que exista uma fórmula capaz de prever exatamente como todas as pessoas reagirão a determinada música.

Não existe.

Cada pessoa carrega memórias, referências, gostos e histórias diferentes.

Mas podemos observar o contexto e tomar decisões mais conscientes.

Podemos diminuir o acaso.

Podemos escolher com intenção.

E foi nesse ponto que comecei a entender que aquilo que eu buscava estudar não estava relacionado apenas a conhecer música.

Tinha relação com saber utilizá-la.

Repertório é ferramenta. Não é resposta.

Quanto mais pensei sobre isso, mais simples essa ideia ficou.

Conhecer música é fundamental para quem trabalha com música.

Mas o repertório é uma ferramenta.

Ele oferece possibilidades.

A decisão exige outra camada.

É preciso perceber o ambiente, compreender o momento e entender o que aquela escolha pode acrescentar à experiência.

Talvez seja justamente nessa passagem entre conhecer e decidir que uma parte importante daquilo que chamo de Inteligência Musical começa a aparecer.

Não como uma receita.

Como uma maneira de olhar.

✨ Insight de Ouro

Conhecer músicas aumenta as possibilidades. Saber usá-las exige perceber o contexto e escolher com intenção.

E talvez essa seja uma boa pergunta para levar para qualquer projeto:

Estou escolhendo esta música porque gosto dela ou porque ela realmente faz sentido para este momento?

No próximo artigo da série, quero avançar justamente sobre essa questão e falar sobre algo que muda completamente nossa percepção sobre uma música:

o contexto.

Que a música nos conecte sempre!

Abraço,
Myrrha

Foto de Myrrha

Myrrha

MYRRHA (Luiz Myrrha) é Diretor Musical, fundador do MYRRHA Group, do Inteligência Musical Hub e Publisher do Música Conecta. Formado em Marketing, com MBA em Inteligência Artificial, atua há mais de 30 anos no mercado musical, conectando música, estratégia, Live Marketing e experiências de marca.

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