Durante muitos anos eu tomei decisões musicais quase intuitivamente.
Uma entrada precisava acontecer naquele segundo. Uma música prevista no roteiro já não fazia mais sentido diante da reação da plateia. Uma transição precisava durar um pouco mais. Em outro momento era justamente o contrário.
Eu sabia o que fazer.
O que eu ainda não sabia era explicar com clareza por que fazia.
Depois de mais de três décadas trabalhando com música e vivendo principalmente os bastidores de eventos corporativos, comecei a perceber que havia algo por trás dessas decisões que ia além de repertório, técnica ou gosto musical.
Era leitura.
Leitura do ambiente. Do público. Do momento. Da intenção.
Foi a partir dessa percepção que comecei a organizar aquilo que hoje desenvolvo como Inteligência Musical.
Quando alguém ouve essa expressão pela primeira vez pode imaginar que estamos falando de um talento especial. Um músico com ouvido privilegiado. Alguém que estudou teoria durante anos ou nasceu com alguma habilidade extraordinária.
Eu não enxergo dessa maneira.
Você não precisa tocar piano, conhecer harmonia ou trabalhar profissionalmente com música para começar a desenvolver Inteligência Musical.
O primeiro passo é perceber.
Pense em quantas vezes você entrou em um ambiente e sentiu imediatamente que aquela música não combinava com o lugar. Talvez não soubesse explicar tecnicamente o motivo. Talvez nem conhecesse a música.
Mesmo assim alguma coisa parecia fora de contexto.
Ali já existe uma leitura.
E quando conhecimento, experiência e observação são acrescentados a essa percepção, as decisões deixam de acontecer apenas pelo gosto e passam a ganhar intenção.
É exatamente por isso que repito há alguns anos uma frase que resume boa parte da minha atuação profissional:
A música em eventos não é só entretenimento. É estratégia.
Em um projeto de live marketing isso fica ainda mais evidente.
Um roteiro pode prever uma grande música para a entrada de um executivo. No planejamento tudo parece perfeito. Só que o evento acontece ao vivo.
O público mudou. O horário atrasou. As pessoas voltaram do almoço em outro ritmo. O apresentador conduziu o momento de forma diferente da prevista.
O objetivo continua sendo o mesmo, mas talvez o caminho precise mudar.
É aí que entra a leitura.
Não basta perguntar qual música tocar.
É necessário perguntar por quê, para quem, quando e com qual intenção.
A música deixa de ser somente aquilo que preenche um ambiente e passa a participar da construção da experiência.
Isso também explica por que Inteligência Musical não é sinônimo de gosto musical.
Uma pessoa pode conhecer milhares de músicas e ainda tomar uma decisão completamente inadequada para determinado contexto.
Da mesma forma, alguém que não possui formação musical pode perceber imediatamente que alguma coisa não faz sentido naquela experiência.
Conhecimento amplia essa percepção. A prática desenvolve a capacidade de decisão.
A expressão “inteligência musical” também possui uma história muito anterior ao meu trabalho. Na década de 1980, Howard Gardner incluiu a inteligência musical entre as capacidades humanas apresentadas em sua Teoria das Inteligências Múltiplas.
Minha abordagem nasceu de outro lugar.
Nasceu da prática.
Das cabines, dos palcos, dos briefings, dos roteiros, dos acertos e também dos erros.
Meu interesse é compreender como essa capacidade de leitura pode ser desenvolvida e como ela interfere na maneira como escolhemos e utilizamos música dentro das experiências que construímos.
O Live Marketing é o meu principal laboratório, mas acredito que essa percepção ultrapassa os eventos.
Todos nós escolhemos músicas.
Criamos playlists. Pulamos uma faixa. Repetimos outra. Associamos determinadas músicas a pessoas, lugares e momentos.
Já existe inteligência acontecendo nessas escolhas, ainda que muitas vezes de maneira intuitiva.
O que acontece quando começamos a fazer isso conscientemente?
✨ Insight de Ouro: Inteligência Musical não começa quando você aprende a tocar. Ela começa quando você aprende a perceber.
Esse é um dos pensamentos que estou aprofundando no livro Inteligência Musical, atualmente em desenvolvimento, e que passa agora a ganhar um espaço próprio também no Inteligência Musical Hub.
Não quero ensinar todo mundo a ser músico.
Quero provocar uma mudança anterior.
Aprender a ouvir de outra maneira.
E você: quando escolhe uma música, está apenas apertando o play ou consegue perceber o que aquela escolha está fazendo dentro da experiência?
Que a música nos conecte sempre!
Abraço,
Myrrha